Dos poréns


- Eu preciso falar o que estou sentindo. Confesso que estou bem confuso. Quando a gente se beijou aquele dia, não posso negar que fiquei muito feliz. Foi um dos melhores beijos da minha vida. Sério! E desde então, eu me pego pensando em ti. Quando eu soube que hoje a gente ia se encontrar, fiquei extremamente ansioso. Contudo, não posso negar que fico com um pé bem atrás com essa minha empolgação. Tu és sete anos mais jovem. Tu estás começando a sua faculdade. Vivendo um mundo novo. Sei lá, eu não sei se vou me encaixar na sua vida. Ademais, eu estou vivendo uma fase que estou gostando de me sentir livre. Sair com os amigos, viajar, morar sozinho, entre outras coisas. Não sei se estou preparado para começar a namorar alguém, entende? Tu és para namorar, eis um fato incontestável. Alguém legal para apresentar para a família. És incrível, delicada, linda, educada e inteligente. Não quero te machucar, mas não quero te perder. Parece meio egoísta isso, mas é o que estou sentindo. Ao mesmo tempo que gostei de ti, eu não sei se sirvo para você. Sei lá, eu estou muito confuso. Eu gosto de ti, gosto mesmo, mas...

- Entendo!

- Só isso que tu tens para me falar? Quero escutar a tua versão, querida. Diga-me o que tu pensas sobre nós. E, principalmente, sobre o que eu acabei de falar. 

- Ok! Eu vou vou falar o que estou pensando. Eu não acredito que tu estejas em dúvida. No fundo, tu sabes o que quer. No fundo, todos sabem o que quer, pois a resposta está dentro de nós. Vou explicar o que eu acho através de uma analogia. Imagina que tu és dono de uma banda. Tal banda já tem um vocalista, ou seja, tu mesmo, e, também, um baixista e um guitarrista. Porém, tu não conheces nenhum baterista. É o que está faltando para começar a sua banda. Então, tu distribuis vários anúncios por aí para encontrar o tal baterista. Passa um tempo, dez candidatos aparecem. Então, tu marcas com eles um dia para conhecê-los. Nessa oportunidade, cada candidato toca um pouco e conta sobre as suas experiências. Os seis primeiros foram descartados por vários motivos, principalmente por falta de talento. O sétimo é bom, mas ele é mais jazz do que rock. O oitavo é muito bom, por enquanto é o melhor candidato. O nono e o décima foram descartados também. Então, tudo que sobrou foi o candidato oitavo mesmo. Era bom. Parecia gente boa. Tinha o mesmo gosto musical que vocês. Naquele momento, ele servia muito bem para a sua banda, mas sentias que ele não era o cara que procuravas. Além disso, ele era um cara que poderia ter pouco tempo para se dedicar a banda. Afinal, ele faz faculdade e ainda trabalha. Porém, uma semana depois, antes de contratá-lo, tu recebes um telefone de um novo interessado para tal vaga. Tu, por intuição, marcas um encontro com esse novo candidato. Ao conhecê-lo, tu percebeste que ele não tinha muita experiência, era novo demais e, também, trabalhava e estudava. Porém, tu permitiste que ele tocasse. E, quando ele começou a tocar, uma só palavra surgiste na sua mente: "encontrei". Esqueceste completamente do oitavo, pois o novo candidato era magnífico perante os seus olhos. Era ele que tu querias contratar e ponto final. O guitarrista da sua banda queria o oitavo, o baixista também, mas tu querias o novo candidato. Ele tinha vários poréns contra ele, inclusive era arrogante, mas era ele quem tu querias. Era ele que se encaixou perfeitamente, na sua concepção, na sua banda. Ninguém tinha o poder de mudar a sua opinião.

- Não estou entendendo. 

- Eu sou a oitava candidata da sua vida. Eu não me tornei a menina dos seus olhos. Então, todos os poréns se tornam relevantes demais. Entendes? Quando tu tiveres certeza, ou seja, quando tiveres um sentimento verdadeiro e sólido por alguém, os poréns vão continuar existindo, mas tu não terás dúvidas. Tu sentirás que os poréns são tão pequenos perto do seu querer. Quando alguém tocar o seu coração de verdade, não existirá mas que prevaleça.  


Escrito por Aline Goulart
Teorema: não há mas que prevaleça, onde há certeza do que se quer.

5 comentários :

  1. Excelente texto!

    Fiquei imaginando essa conversa na minha cabeça. Gostaria de saber o que ele pensou ou fez depois disso. Afinal, a resposta foi genial.

    Abraços,
    Noemi.

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  2. Ai, ai, ai, esse texto descreve o meu momento. Perfeita conclusão. Aline, o seu blog é incrível. Acompanho-te desde sempre. Bjos.

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  3. O verdadeiro querer o abrir mão do resto há de conter.
    GK

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  4. A analogia é perfeita! O entendimento, claro como uma manhã de sol. O oitavo é a melhor entre oito opções. Mas o insubstituível não concorre, não deixa opções, não admite análise ou comparação. Está evidente que ter predicados é importante! O caráter de alguém a quem eu deseje namorar é importante. Mas é fundamental que eu goste, que eu precise da pessoa, que ela seja a baterista que eu quero, ainda que 'tecnicamente' não seja a mais sensacional baterista do mundo. E aí, se é ela, eu jamais direi se o tempo não vai dar, se vai atrapalhar minha liberdade, se os outros vão gostar dela... Meu coração elimina não apenas essas dificuldades, como até mesmo a possibilidade de eu pensar nelas! Belíssimo, Aline! Beijinhossssssss

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  5. Quando comecei a ler as inúmeras justificativas do rapaz e com todos os "mas, poréns, contudos" e etc, lembrei do que Hermann Hesse falava sobre desejo e querer - a própria pessoa é quem proporciona a realização do desejo e não o acaso ou os diversos "poréns". (mesmo no que parece ser acaso, na verdade é um movimento interno que leva ao encontro)

    A comparação com a banda e o oitavo baterista é excelente: "porém tu PERMITISTE que ele tocasse". Houve abertura e se isso não estiver presente, seja em qualquer "setor" da vida ( inclusive relacionamentos - amorosos, familiares, profissionais) ficaremos presos aos poréns paralisantes.

    Bjks

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