Ser palavra

Folha em branco. Uma possibilidade. Um anseio que se faz presente. Que anseio? Ser palavra. Por qu√™? Porque todas as tentativas j√° foram apostadas ou, ao menos, refletidas em algum momento. E, ademais, h√° uma urg√™ncia forte se alastrando pela mente. N√£o √© poss√≠vel de conter com qualquer argumento. Que urg√™ncia? De colocar esse anseio em pr√°tica. De tentar transbordar tudo que est√° aqui dentro para al√©m daqui, pois √© t√£o urgente quanto esse anseio que surgiu de forma avassaladora agora pouco. Se foi recente, ser√° que n√£o passar√° logo? N√£o! N√£o vai. √Č uma urg√™ncia bem expl√≠cita.  

Ok! Quando se diz todas as tentativas j√° foram apostadas, o que significa isso? N√£o √© poss√≠vel seguir sem pontuar melhor essa declara√ß√£o. Significa que a alma j√° tentou de todas as formas de expressar o que est√° impregnado nela mesma. H√° uma exaust√£o impl√≠cita nos ditames dessa alma t√£o sobrecarregada. Sobrecarregada? Sim! Quem carrega todos os ditames e lembran√ßas postuladas pelo verbo sentir? Quem guarda para si as vertentes de todas as escolhas? Quem det√©m as posi√ß√Ķes firmes ou filos√≥ficas da raz√£o? 

E as tentativas que somente foram analisadas? Ser√° que n√£o pode sair do campo da reflex√£o? Pode ser que sim, pode ser que n√£o. Quando se tem uma urg√™ncia latente, qualquer ato mais expressivo para quebrantar essa hesita√ß√£o √© louv√°vel. Al√©m do mais, quando se transforma tudo isso em palavra, h√° o registro. O registro √© fundamental, pois a mem√≥ria pode algum dia falhar. √Č como se fosse um meio seguro de se fazer presente e, ao mesmo tempo, de permanecer presente. A palavra nos memoriza. 

E o que se deseja memorizar? O existir, a exaust√£o, a inquieta√ß√£o, a reflex√£o, a causa e a consequ√™ncia, o sentir e o pensar. O verbo existir √©, concomitantemente, complexo e singular. Existimos diante de uma vida repleta de pluralidades, mas somos um mundo √† parte nessa engenhosa engrenagem. A alma, por vezes, sente inquieta√ß√£o sobre tudo isso. Afinal, sentir e pensar demandam dessa exist√™ncia uma energia e tanto. Por isso, uma hora a exaust√£o chega com a sua for√ßa e com a sua urg√™ncia de manifestar as suas perplexidades. 

E qual √© o meio mais criativo para se manifestar? Qual? Atrav√©s da arte. A arte √© a manifesta√ß√£o mais en√©rgica da alma humana. Escrever √©, acima de tudo, uma arte. Uma arte entre tantas. A palavra escrita √© uma arte que nos permite existir. E nos permite existir al√©m de n√≥s, mas n√£o deixando de nos pertencer. √Č uma das belezas criadas pelo ser humano. E merece ser exaltada. Fant√°stico! Vamos ser palavra, por algum instante, ent√£o? Sim! Sempre que poss√≠vel.

Escrito por Aline Goulart

8 coment√°rios :

  1. Uau! Tão sublime e amplo, que dá vontade de sair escrevendo por aí.
    Arrasou, Aline. Há um quê de filosofia no seu pensar. O que deixa tudo mais incrível por aqui.

    Bjos, Si

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  2. Eu amo estes teus textos poéticos-filosóficos!
    Tu és uma palavra rara e fico feliz em ter o privilégio de ler algumas sílabas!

    Beijos! =)

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  3. Você é conhecedora das palavras. O que é bom para quem te acompanha. Abraços.

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  4. Um texto memorável... onde tão bem exprime o seu amor e fascínio pela escrita, Aline!...
    Um trabalho brilhante! Para ler e reler! Parabéns!
    Beijinhos
    Ana

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Ana! Fiquei emocionada com seu coment√°rio.

      Beijinhos.

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